Um dos principais lugares onde um médico exerce sua profissão é o
hospital. É lá, também, onde grande parte dos cuidados às pessoas
doentes ou acidentadas é realizado. Muito comum nos dias atuais em
praticamente todos os países. Mas, de onde será que surgiu a ideia de se
construir hospitais, se na antiguidade não existia nada semelhante?
De uma forma geral o hospital moderno representa a solicitude
natural humana para com o sofrimento das pessoas, enobrecido pela
fraternidade e tornada eficiente devido aos inúmeros recursos da
tecnologia médica e das especializações profissionais.
O nome Hospital vem do latim “hospes”, que significa “convidado”. Daí deriva “hospitalis” (hospitaleiro) e “hospitium”,
uma casa de hóspedes ou quarto de hóspedes. Originalmente, o termo
hospital significava um lugar onde estrangeiros ou visitantes eram
recebidos e, no decorrer do tempo, o uso desse termo ficou restrito a
instituições destinadas ao cuidado dos doentes. Esta modificação é
incidental devido ao longo desenvolvimento pelo qual os hospitais
passaram, sob as variadas influências de sociais, mudanças nas condições
políticas e econômicas, e ao progresso científico.
Antiguidade pagã
Em tribos selvagens, como os antigos povos germânicos, os
doentes e fracos eram muitas vezes abandonados para morrer, práticas
mais humanas só foram encontradas entre alguns povos mais civilizados.
Um dos primeiros lugares para cuidar de enfermos de que se tem
registro foi fundado na Irlanda, no ano 300 antes de Cristo, pela
Princesa Macha. Era chamado de "Broin Bearg" (casa de tristeza), e era
usado pelos Cavaleiros da Casa Vermelha (Red Branch Knights) como
residência no Ulster até sua destruição no ano 332 da era Cristão (332
d.C.) ("Seanchus Mor", 123. Cf. Sir W. Wilde, "Notas sobre a Irlanda
Antiga", pt. III). Na Índia, o reino budista de Azoka (252 a.C.) tinha
um local para tratar de homens e animais. Os mexicanos, em tempos
pré-colombianos, tinham várias instituições em que os doentes e os
pobres eram atendidos (Bancroft, "Raças nativas", II, 596).
Entretanto, nem tudo que poderia ser chamado de hospital
corresponde ao conceito de hospital usado atualmente. Apesar de
possuírem alguns conhecimentos médicos, sabe-se que a maior parte dos
procedimentos nesses lugares destinava-se apenas a aliviar o sofrimento
não a curar.
Do estudo dos Papiros, em especial os de Ebers, aprendemos que
os egípcios empregavam um número considerável de remédios e que
mantinham algum tipo de clínica nos templos. Costumes semelhantes
prevaleceram na Grécia. Os doentes recorriam ao templo de Esculápio
(Esculapium), onde poderiam ter banhos térmicos, realizar consultas a
oráculos e passar a noite (incubatio) na esperança de receber instruções
do deus por meio de sonhos que os sacerdotes interpretavam. Pacientes
curados faziam doações denominadas “Taxas”. Médicos leigos
(Esculapiades) cuidavam de certo tipo de farmácia nas quais as pessoas
recebiam tratamento. Em Epidauro o senador romano Antonino ergueu (ano
170 d.C.) dois estabelecimentos, um para os moribundos e o outro para as
mulheres grávidas, pois esses pacientes não eram admitidos no
Esculapium.
Os romanos, em seus tratamentos aos doentes, adotaram muitos
dos costumes gregos. Havia um templo de Esculápio na ilha de Tibre (ano
291 a.C.), onde agora existe a igreja e mosteiro de São Bartolomeu, no
qual se observavam os mesmos ritos adotados entre os gregos. Médicos
municipais eram designados para tratar várias classes de cidadãos, e
estes profissionais geralmente gozavam de privilégios e imunidades.
Provisões eram armazenadas para o cuidado dos soldados doentes e
escravos, os últimos a receberem atenção nas chamadas valetudinarias,
locais privados que os romanos mais ricos mantinham anexos às suas
propriedades. Mas não há registro de qualquer instituição correspondente
ao nosso conceito moderno de hospital.
Embora a Grécia e Roma tenham atingido o mais alto grau de
cultura no seu tempo, o tratamento dispensado aos doentes era
praticamente igual, e certamente não superior, ao que era encontrado nas
nações orientais. Ambos, gregos e romanos, consideraram a doença como
uma maldição imposta por poderes sobrenaturais e por isso procurava mais
apaziguar a divindade malévola do que aplicar procedimentos de alívio
ao doente.
INÍCIO DA ERA CRISTÃ

Jeus cura um leproso
|
Segundo consta dos relatos
históricos, o próprio Cristo deu aos seus seguidores o exemplo de cuidar
dos doentes. Por meio de numerosos milagres ele operou a cura de
diversas formas de doença, incluindo a doença mais repugnante da época, a
lepra. Ele também encarregou os apóstolos de curar os enfermos (Lucas
10:9) e prometeu, para aqueles que acreditavam nele, que teriam poder
sobre a doença (Marcos 16:18).
Entre os muitos prodígios e sinais
feitos pelos Apóstolos em Jerusalém estão a cura do homem coxo (Atos
3:2-8), do paralítico Enéas (IX, 33, 34), e de um aleijado em Listra
(XIV, 7, 9). Há também uma grande quantidade de curas atribuídas a São
Pedro (V, 15, 16). São Paulo enumera entre os carismas "a graça da cura"
(1 Coríntios, 12:9), e São João (V, 14, 15) adverte os fiéis para, em
caso de doença, trazer os padres da Igreja e deixá-los orarem sobre o
homem doente, "e a oração da fé o salvará", sendo que um rito religioso,
o Sacramento da Unção dos Enfermos, foi instituído para a restauração
da sua saúde corporal.
|
Dessa forma, o cuidado dos doentes foi
desde o início um dever sagrado para cada um dos cristãos, mas
atribuída, de modo especial, a os bispos, presbíteros e diáconos. Os
mesmos auxílios que traziam alívio para os pobres incluíam também
atenção aos doentes, os quais eram visitados em suas casas.
Este foi especialmente o caso durante as epidemias que se
alastraram em diferentes partes do Império Romano, como a de Cartago, no
ano 252 d.C. (São Cipriano, "De mortalitate", XIV, in: Migne, PL, IV,
591-593) e a de Alexandria, em 268 d.C. (Eusébio, História da Igreja,
VII.22; "Acta S.S.", VI, 726).
Cipriano (210-258), bispo de Cartago, norte da África,
repreendeu a população pagã por não socorrer as vítimas da praga
preferindo saqueá-las. Ele convocou os cristãos chamando-os a socorrer
os doentes e enterrar os mortos.
Valiosa assistência também foi prestada por médicos, escravos
ou libertos, que haviam se tornado cristãos, como Cosme e Damião, que
eram solícitos para com as necessidades físicas, conforto corporal e
bem-estar de seus pacientes. Outra característica da vida cristã era a
obrigação da prática da hospitalidade (Romanos 12:13, Hebreus 13:02, 1
Pedro 4:9; 3 João). O bispo em particular deve ser "dado à
hospitalidade" (1 Timóteo 3:2). O cristão, portanto, indo de um lugar
para outro, era bem recebido nas casas dos irmãos, mas essa
hospitalidade também era estendida ao visitante pagão.
Clemente de Roma elogia o povo de Coríntio por sua
hospitalidade (Ep. ad. Coríntios, C. I) e Dionísio de Corinto, pela
mesma razão dá crédito aos Romanos (Eusébio, História da Igreja, IV.
23).
A casa do bispo, em especial, era aberta ao viajante que não só
encontrava comida e abrigo, mas também, em caso de necessidade, os
meios para continuar sua jornada. Em alguns casos o bispo era também um
médico, que provia ajuda para aqueles que dela necessitavam (Harnack,
"Medicinisches aus d. ältesten Kirchengesch", in: "Texte u.
Untersuchungen" VIII, Leipzig, 1892).
Os doentes também eram atendidos na "valetudinaria" dos romanos
cristãos ricos, que com espírito de caridade estendiam a hospitalidade
para aqueles que não podiam ser acomodados na casa do bispo. Havia,
portanto, desde os primeiros tempos, um sistema bem organizado para
fornecer ajuda às várias formas de sofrimento, mas que era
necessariamente limitado e dependente do esforço privado, principalmente
porque, ao mesmo tempo, os cristãos estavam sob o julgo de um Estado
hostil que muitas vezes os perseguia.
Enquanto havia perseguição aos cristãos, uma instituição de
caráter público, como nossos hospitais modernos, estava fora de questão.
Somente quando o imperador Constantino (ano 313) deu liberdade à Igreja
Católica, tirando-a da clandestinidade e interrompendo, pelo menos
durante seu reinado, as perseguições, os cristãos puderam aproveitar sua
maior liberdade para ajudar os doentes por meio dos primeiros
hospitais.
Vários motivos e causas têm sido propostas para explicar o
desenvolvimento de serviços de cuidados aos doentes na forma de um
trabalho institucional em hospitais (Uhlhorn, I, 317 ss). Não foi,
porém, devido a um enfraquecimento da caridade, como tem sido afirmado
(Moreau-Christophe, "Du probleme de la misere", II, 236, III, 527), mas
sim devido ao rápido crescimento no número de cristãos e à disseminação
da pobreza sob novas e variadas condições econômicas adversas. Para
atender a essa grande demanda, um tipo diferente de organização era
necessário, e isto, em conformidade com a tendência predominante para
dar um caráter institucional a todo trabalho voltado ao bem comum, levou
à organização e fundação de hospitais.
Quando e onde o primeiro hospital foi criado é uma questão
aberta. De acordo com algumas autoridades (Ratzinger, OBRA p. 141), São
Zoticus construiu um em Constantinopla durante o reinado de Constantino,
fato esse não comprovado. Mas que os cristãos no Oriente haviam fundado
hospitais antes de Juliano o Apóstata subir ao trono (361 d.C.) é
evidente a partir da carta que o imperador enviou a Arsacius, sumo
sacerdote da Galácia, direcionando-o a estabelecer algo equivalente em
cada cidade às custas da receita pública (Soxomen, V, 16). Como ele
declara em sua carta, o objetivo era rivalizar com o trabalho
filantrópico dos cristãos, que se preocupavam tanto com os cristãos como
com os pagãos. Um exemplo desta obra abrangente é encontrado na obra de
Santo Efrém que, durante a peste em Edessa (375 d.C.), providenciou 300
camas para os doentes.
Mas as fundações mais famosas foram as de São Basílio Magno
(330-369), em Cesaréia, na Capadócia. Suas "Basilias", como eram
chamadas, tinham as dimensões de uma pequena cidade, com suas ruas
regulares edifícios para diferentes tipos de pacientes. Residências para
médicos e enfermeiros, oficinas e escolas industriais. Fundou também um
hospital especialmente para cuidar dos leprosos. São Gregório de
Nazianzo ficou profundamente impressionado com a extensão e a eficiência
desta instituição que descreveu com entusiasmo (Or. 39, "In laudem
Basilii"; Or. fun. "In Basil.", P.G., XXXVI, 578-579).
O exemplo de São Basílio foi seguido por todo o Oriente: em
Alexandria, por São João, o doador de esmolas (610 d.C.); em Éfeso pelo
bispo, Brassianus; em Constantinopla por São João Crisóstomo e outros,
nomeadamente Santa Pulquéria, irmã de Teodósio II, que fundou a "Multa publica hospitum et pauperum DOMICILIA",
que eram diversas casas para atender estrangeiros e pobres (Acta S.S.,
XLIII). Na mesma cidade, Samson, no início do século VI, fundou um
hospital perto da igreja de Santa Sofia (Procópio, "De aedif. Justiniani",
I, c. 2), que foi destruído e posteriormente restaurado na época de
Justiniano, que também construiu outros hospitais em Constantinopla.
Du Cange (História Bizantina, II, "Constantinopolis Christiana")
enumera 35 estabelecimentos desse tipo apenas nessa cidade. Entre os
estabelecimentos surgidos posteriormente, em Constantinopla, os mais
notáveis foram o “Orphanotrophium”, fundado por Aleixo I (1081-1118), e o hospital dos Quarenta Mártires, fundado por Isaac II (1185-1195).

ruínas do xenodochium de masona
|
Os nomes dos primeiros hospitais eram
derivados do grego e designavam o objetivo principal de cada
instituição. Alguns dos termos mais frequentemente usados eram o “Nosocomium” para os doentes, o “Brephotrophium” para enjeitados, o “Orphanotrophium” para os órfãos, os “Ptochium” para os pobres que eram incapazes de trabalhar, o “Gerontochium” para idosos e o “Xenodochium” para peregrinos pobres ou doentes. |
Uma mesma instituição muitas vezes atendia necessidades
diversas. A diferenciação estrita implícita nos nomes ocorreu de forma
gradual. No Ocidente, a primeira fundação foi o de Fabíola, em Roma, por
volta do ano 400 d.C. São Jerônimo dizia que "ela, antes de todos,
fundou um nosocomium para cuidar dos doentes das ruas e das pessoas que sofrem com a pobreza e doença" (Ep. LXXVII; "Ad Oceanum, de morte Fabiola”, PL, XXII, 694).
Na mesma época, o senador romano Pammachius fundou um “Xenodochium”
na cidade do Porto, a qual São Jerônimo elogia em sua carta sobre a
morte de Paulina, esposa de Pammachius (Ep. LXVI, PL, XXII, 645). O Papa
Símaco (498-514) construiu hospitais em conexão com as igrejas de São
Pedro, São Paulo, e St. Lawrence (Lib. Pontif. I, nº 63, p. 263).
Durante o pontificado de Vigilius (537 - 555) Belisário fundou um “Xenodochium”
na Via Lata, em Roma (Lib. Pontif, lc 296). Pelágio II (578-590)
converteu sua casa em um refúgio para os pobres e idosos. Stephen II
(752-757) restaurou quatro antigos “xenodochia” e acrescentou outros três. |

Xenodochium
|
O primeiro estabelecimento na França remonta ao século VI, quando o Rei Chuldebert e sua esposa fundaram uma “xenodochium”
em Lion, que foi aprovado pelo Quinto Conselho de Orleans (ano de 549).
Outras fundações foram as de Brunehaut, esposa do Rei Sigibert, em
Autun (perto do século VI); de São Radegonda, esposa de Clotário, em
Athis, perto de Paris; de Dagoberto I (622-638), em Paris; de Cesário e
sua irmã Santa Cesária de Arles (542), e o hospício ao qual Hincmar de
Reims (806-882) doou valores consideráveis.
Hôtel-Dieu por volta do ano 1500 (no fundo da ala, observa-se um altar para que os doentes pudessem ter a Missa)
|
Quanto à origem da
instituição mais tarde conhecida como o Hôtel-Dieu (“Hotel de Deus”), em
Paris, sua fundação tem sido atribuída à Landry, Bispo de Paris (São
Landerico de Paris, 661), entre os séculos VII e XVII , mas há algumas
divergências de opinião: Haser (IV, 28) coloca seu ano de fundação em
660, De Gerando (IV, 248) em 800.
De acordo com Lallemand (II, 184) é mencionado pela
primeira vez em 829 (cf. Coyecque, "L'Hotel-Dieu de Paris au Moyen Age",
I, 20). |
Como o nome indica, pertencia ao grupo de
instituições que cresceu em conexão com a catedral ou com a igreja
principal de cada grande cidade e para o qual não há certeza quanto a
sua data de fundação. A mesma incerteza prevalece em relação a outras
fundações, como a “hospitalia Scothorum”, estabelecida no
continente pelos monges irlandeses, que havia entrado em decadência, mas
o Concílio de Meaux (845) ordenou sua restauração.
Na Espanha, a instituição mais importante para o cuidado dos
doentes foi fundada em 580 pelo bispo Masona em Augusta Emerita
(Mérida), uma cidade na província de Badajoz. A partir do relato feito
por Paulo, o Diácono, sabemos que o bispo dotou este hospital com uma
receita de grande porte, médicos e enfermeiros, e deu ordens para que
onde quer que eles encontrassem um homem doente "escravo ou livre,
cristão ou judeu", deveriam trazê-lo para o hospital e lhes fornecesse
cama e alimentação adequada (Florez, "España Sagrada", XIII, 539;
Heusinger, "Em Beitrag", etc, em "Janus", 1846, I).
IDADE MÉDIA
Guenter Risse, Ph.D., historiador da ciência e medicina, em “A History of Hospitals”,
mostra que quando caiu o império romano do ocidente (476), os mosteiros
assumiram cada vez mais os cuidados dos doentes na Europa e por vários
séculos. Esses mosteiros se tornaram verdadeiras escolas de medicina
entre os séculos V e X, chamado de período da medicina monástica (Felipe
Aquino, 2008).
Durante o período de declínio e de corrupção que culminou com o
reinado de Carlos Martelo (668-741), os hospitais, assim como outras
instituições eclesiásticas, sofreram consideravelmente.
Mas no reinado de Carlos Magno (747-814), entretanto, junto com
suas outras reformas, foram tomadas sábias providências para o cuidado
dos enfermos, decretando que os hospitais que tinham entrado em
decadência deveriam ser restaurados de acordo com as necessidades do
momento (Capit. duplex, 803, c. III). Ele ainda ordenou que um hospital
deveria ser anexado a cada catedral e mosteiro. Hincmar em seu "capitula ad presbyteros"
(Harduin, Y, 392) exortava seus clérigos a suprir as necessidades dos
doentes e os pobres. Nesse período, os mosteiros se destacaram como os
principais centros de estudo e transmissão dos textos antigos de
medicina.
Não obstante estas medidas, seguiu-se, após a morte de Carlos
Magno, um novo período de decadência marcado por abuso generalizado e
desordem, e muitos dos cuidados aos pobres que eram feitos nas paróquias
das igrejas migrou para os mosteiros. Em cada lugar onde surgia um
mosteiro formavam-se centros de vida religiosa organizada com escolas,
modelos para a agricultura, indústria, piscicultura, reflorestamento,
proteção aos viajantes, alívio para os pobres, órfãos, cuidado dos
doentes, e atividade cultural (Felipe Aquino, 2008).
Os hospitais sofriam de várias maneiras, especialmente através
da perda de suas receitas que foram confiscadas pelos Reis ou desviadas
para outros fins. Em uma carta a Luís, o Piedoso, escrita por volta de
822, Victor, bispo de Chur, reclama que os hospitais estavam sendo
destruídos. Mas, mesmo nestas condições desfavoráveis muitos dos
bispos se distinguiram, entre eles Ansgar, o arcebispo de Hamburgo
(falecido em 865), que fundou um hospital em Bremen o qual ele visitava
diariamente.
Durante o século X os mosteiros tornaram-se um fator dominante
nos trabalhos hospitalares. A famosa abadia beneditina de Cluny, fundada
em 910, tornou-se um exemplo que foi amplamente imitado por toda a
França e Alemanha. Além de sua enfermaria para os religiosos, cada
mosteiro tinha um hospital (Hospitale pauperum, ou E leemosynaria) que
atendia as pessoas externas ao mosteiro.
Os monges eram responsáveis por funções, cuidadosamente
prescritas por uma regra de conduta, que detalhava cada tipo de serviço
que um visitante ou paciente poderia precisar. Como eles também se
incumbiam de procurar doentes e necessitados nas vizinhanças, cada
mosteiro se tornou um centro para de alívio do sofrimento. Entre os
mosteiros mais famosos desse tipo pode-se citar os dos monges
beneditinos em Corbie na Picardia, Hirschau, Braunweiler, Deutz,
Ilsenburg, Liesborn, Prum, e Fulda, e os dos monges Cistercienses em
Arnsberg, Baumgarten, Eberbach, Himmenrode, Herrnalb, Volkenrode e
Walkenried.
Não menos eficiente foi o trabalho realizado pelo clero
diocesano, em acordo com os atos disciplinares dos Concílios de Aachen
(anos 817 e 836), que prescreviam que um hospital deveria ser mantido em
conexão com cada igreja colegiada. Os clérigos eram obrigados a
contribuir para manter o hospital. Como esses hospitais eram geralmente
localizados nas cidades, tinham uma procura maior do que os hospitais
ligados aos mosteiros. Nesse movimento de criação desses hospitais o
bispo tomava a liderança, daí muitos hospitais terem sido fundados por
bispos, como Heribert (falecido em 1021) em Colônia, Godard (falecido em
1038) em Hildesheim, Conrad (falecido em 975) em Constance e Ulrich
(falecido em 973) em Augsburg.
Mas disposições semelhantes eram encontradas em outros
clérigos. Assim, os hospitais de São Maximiniano, São Mateus, São Simeão
e São Tiago levaram os nomes das igrejas aos quais estavam anexados.
Durante o período de 1207-1577 cerca de 155 hospitais foram fundados na
Alemanha (cfr. Virchow, in: "Gesch. Abhandl.", II).
AS ORDENS HOSPITALARES
O surgimento de confrarias e ordens religiosas com a finalidade
de ajudar os doentes é uma das fases mais importantes na história do
desenvolvimento dos hospitais. A primeira delas surgiu em Siena
(Toscana, Itália) no final do século IX, com a fundação do hospital de
Santa Maria della Scala e a elaboração de suas regras.
A gestão desses hospitais ficava em grande parte nas mãos dos
cidadãos, embora sujeito ao controle do bispo. Instituições similares,
na maioria das vezes regida pela Regra de Santo Agostinho, surgiram em
todas as partes da Itália. Nos países do norte (Bélgica, França e
Alemanha) algumas ordens religiosas fundadas no fim do século XII
incluíam em seus objetivos a caridade e o cuidado dos doentes. Nessa
época, Santa Isabel da Hungria fundou dois hospitais em Eisenach e um
terceiro em Wartburg.
Além da ordem dos Antoninos, que seguiam o regimento da Ordem
de Santo Antonio, a ordem mais importante surgida durante este período
foi a Ordem do Espírito Santo. Por volta de meados do século XII (c.
1145) Guy de Montpellier abriu um hospital em honra do Espírito Santo e
prescreveu as Regra de Santo Agostinho para os irmãos encarregados de
mantê-lo. Aprovado em 23 de abril de 1198 pelo Papa Inocêncio III, esse
instituto se espalhou rapidamente por toda a França. Em 1204 esse mesmo
papa construiu um hospital chamado de Santa Maria, em Sassia. Por ordem
do papa, Guy de Montpellier foi para Roma e assumiu o comando do
hospital, que dali em diante passou a chamar-se Hospital do Espírito
Santo (Cf. Morichini, "Instituti di Carita”, in: Roma, 1870).
O exemplo do Papa foi imitado por toda a Europa. Quase todas as
cidades tinham um hospital do Espírito Santo, embora nem todas as
instituições que levavam esse nome pertencessem à ordem que Guy de
Montpellier havia fundado.

Ospedale di S.Giacomo degli Incurabili (Hospital San Giacomo) |
Em Roma, o cardeal Giovanni
Colonna fundou (1216) o hospital de Santo André, não muito longe do de
Latrão, e o hospital de São Giacomo foi fundado em 1339. Querini ("La Beneficenza Romana",
Roma, 1892) relaciona a quantidade de hospitais fundados em Roma nesse
período: século XI, quatro; século XII, seis; século XIII, dez; século
XIV, cinco; século XV, cinco. Ou seja, trinta hospitais para o cuidado
dos doentes e enfermos foram fundados na cidade dos papas em cinco
séculos. |
AS ORDENS MILITARES
As Cruzadas deram origem a várias ordens de cavalaria que
combinavam o serviço militar com o cuidado dos doentes. A mais antiga
delas foi a Ordem dos Cavaleiros de São João (Hospitaleiros). Vários
hospitais foram fundados em Jerusalém para fornecer cuidados aos
peregrinos. O mais antigo foi o da abadia beneditina de Santa Maria
Latina, fundado na época de Carlos Magno no ano 800. Os “Hospitais de
São João” impressionavam pelo profissionalismo, onde se realizavam até
pequenas cirurgias e os doentes recebiam visitas de médicos duas vezes
ao dia, banhos, refeições e roupas. Esses hospitais foram modelos para a
Europa (Felipe Aquino, 2008).
Em todo o caso, quando a Primeira Cruzada chegou a Jerusalém em
1099, Gerhard, superior de um hospital, comandou a construção de um
novo edifício perto da igreja de São João Batista, de onde aparentemente
a ordem obteve seu nome. Essas ordens espalharam-se rapidamente na
Terra Santa e na Europa, especialmente nos portos do Mediterrâneo que
estavam cheios de cruzados. Sua finalidade original era o trabalho
hospitalar. De acordo com John de Wisburg (ano de 1160, cfr. Pez, "Anecdota", I, 3, 526) o hospital em Jerusalém cuidava de mais de 2.000 pacientes.
O aspecto militar foi introduzido em meados do século XII. Em
ambos os casos por um tempo a Ordem prestou um excelente serviço, mas
durante o século XIII o aumento da riqueza e o desleixo moral provocaram
um declínio e, com isso, o zelo e o cuidado dos doentes foi em grande
parte abandonados.
A Ordem Teutônica desenvolveu-se nos hospitais de campo, sob as
muralhas de Acre, em que o conde Adolf de Holstein, com outros cidadãos
alemães (oriundos de Bremen e Lubeck) cuidavam dos doentes e feridos.
Sob o nome de "Domus Hospitalis S. Mariae Teutonicorum in Ier usalem” foi aprovada por Clemente III em 1191.
Seus membros faziam voto de serviço a os doentes e sua norma
prescrevia que onde quer que a ordem fosse introduzida deveria se
construir um hospital. O centro da sua atividade, no entanto, logo foi
transferido da Terra Santa para a Europa, especialmente para a Alemanha
onde, devido à sua organização rígida e excelentes métodos
administrativos, foram encarregados de cuidar dos muitos hospitais já
existentes. Entre os seus numerosos estabelecimentos, os de Elbing e
Nuremberg gozavam da mais alta reputação. Entretanto, apesar de uma
gestão prudente e da lealdade para com seus propósitos originais, a
Ordem Teutônica sofreu severamente devido a perdas financeiras e à
guerra e ao final do século XV seu vigor primitivo estava bastante
desgastado.
HOSPITAIS NAS CIDADES
As Cruzadas, abrindo uma comunicação mais livre com o Oriente,
instauraram um ambiente comercial por toda a Europa e, em consequência,
as cidades, distintas da propriedade feudal e das aldeias, começaram a
surgir.
As condições econômicas daí decorrentes afetaram o
desenvolvimento dos hospitais de duas maneiras. O aumento da população
nas cidades necessitava a construção de numerosos hospitais, por outro
lado, havia uma maior abundância de recursos para os trabalhos de
caridade. Fundações dirigidas por leigos tornaram-se mais frequentes.
Indivíduos movidos pelo espírito público, corporações,
irmandades e governos municipais apoiaram o surgimento de novos
hospitais. Neste movimento as cidades italianas foram as mais
importantes. Monza no século XII tinha três hospitais, Milão tinha onze e
Florença trinta (século XIV). Os mais famosos foram: La Santa Casa di
Santa Maria Annunziata, em Nápoles, fundado em 1304 pelos irmãos Nicolo e
Scondito Giacomo; Santa Maria Nuova, em Florença (1285) fundado por
Falco Portinari (o pai da Beatriz na obra de Dante) e o Maggiore
Ospedale em Milão (1456) pelo duque Francesco Sforza e sua esposa Bianca
Maria.
As cidades alemãs não foram menos ativas: Stendal tinha sete
hospitais; Quedlinburg, quatro; Halberstadt oito; Magdeburg, cinco;
Halle, quatro; Erfurt, nove; Colônia, dezesseis (cf. Uhlhorn, II, 199
ss).
Quanto à parte que os governos municipais tiveram nesse
movimento, as opiniões divergem. Alguns autores (Uhlhorn, Ratzinger)
sustentam que, na maioria dos casos, o hospital da cidade era fundado e
mantido pelas autoridades da cidade, enquanto outros (Lallemand, II, 51)
declaram que, entre os séculos XII e XVI, relativamente poucas
fundações foram feitas pelos municípios, embora muitas vezes apoiassem a
iniciativa privada com terras e subvenções, ou assumiam a direção dos
hospitais uma vez estes eram estabelecidos.
No entanto, é inquestionável que nesse período houve uma
passagem frequente do controle dos hospitais para as mãos dos governos
dos municípios, especialmente na Itália e na Alemanha. Normalmente essa
transferência era facilmente efetuada com base num acordo entre o
superior do hospital e as autoridades civis, como ocorreu, por exemplo,
em Lindau (1307), Lucerna (1319), Frankfurt (1283) e Colônia (1321). Em
certos casos, quando havia algum litígio quanto ao acordo de
transferência, o assunto era submetido à uma autoridade eclesiástica
mais alta. Assim, o hospital Espírito Santo em Gottingen foi entregue ao
município por ordem do Concílio de Basiléia em 1470 (Uhlhorn, loc.
Cit.). Essas transferências, deve-se notar, não implicavam em nenhuma
oposição à autoridade eclesiástica. Eram resultado do desenvolvimento
geral que obrigavam as autoridades de cada cidade a cuidar da gestão das
instituições das quais o bem público em grande medida dependia.
Sobre essa transferência de administração não havia a questão
da secularização, no sentido moderno do termo. Muito menos ocorreu de a
Igreja proibir clérigos de qualquer participação no controle de
hospitais, apesar de alguns autores modernos tentarem interpretar dessa
forma o decreto do Concílio de Viena, de 1311. Em resposta à Frere Orban
(pseudônimo de Jean Vaudamme, "La main Morte et la Charité",
Bruxelas, 1857), Lalletnand (II, 106 ss) aponta que o que o conselho fez
foi proibir conferir a atribuição de hospitais e sua administração a
clérigos a título de benefício ("nullus ex locis ipsis saecularibus clericis em beneficium conferatur").
O decreto visava evitar a possibilidade de desvio de fundos do
hospital de seu propósito original de caridade para o benefício pessoal
de indivíduos. Por outro lado, o Conselho de Ravena, no mesmo ano
(1311), considerando o desperdício e malversação de receitas de
hospitais, ordenou que a gestão, supervisão e controle dessas
instituições deveria ser dado exclusivamente a pessoas religiosas.
Na França, o movimento em favor do controle secular avançou
muito mais lentamente. O Rei Filipe Augusto, em 1200, decretou que todos
os hospitais e seus fundos financeiros deveriam ser administrados pelo
bispo ou algum outro eclesiástico. O Conselho de Paris (1212) tomou
medidas para reduzir o número de atendentes nos hospitais que, como os
bispos declaravam, foram feitos para servir os doentes e não para o
benefício das pessoas de boa saúde.
No Concílio de Arles (1260) foi promulgada, em vista da
ocorrência de abusos, que os hospitais deviam ser colocados sob a
jurisdição eclesiástica e conduzidas por pessoas que deveriam "levar uma
vida comunitária, apresentar relatórios anuais de sua administração e
não reter para si nada além de alimentos e roupas" (can. 13).
Decretos semelhantes foram emitidos pelo Conselho de Avignon
(1336). Mas os protestos dos sínodos e bispos eram de pouca valia contra
a desordem crescente. Mesmo o Hôtel-Dieu de Paris (“Hotel de Deus”),
que na maior parte do tempo tinha sido bem gerido, começou no século XV a
sofrer com graves abusos. Depois de várias tentativas de reforma, o
responsável por Notre-Dame solicitou às autoridades municipais assumirem
a administração do hospital (Abril, 1505). Assim, uma diretoria
composta de oito pessoas, delegados do município, foi nomeado e, com a
aprovação do tribunal, assumiu a administração do Hôtel-Dieu (Lallemand,
II, 112).
GRÃ-BRETANHA E IRLANDA
Nestes países, o cuidado dos doentes foi por um longo tempo
confiado às ordens monásticas. Cada mosteiro, conforme as regras
provindas do Continente, proviam o tratamento tanto de seus próprios
membros quanto das pessoas da vizinhança que ficavam doentes.
No “Penitencial de Teodoro” (668-690) lemos (VI, 15): "em potestate et libertate est monasterii susceptio infirmorum em monasterium",
ou seja, o mosteiro era livre para receber em suas dependências os
doentes. De acordo com Harduino (IV, 864) um grande hospital foi fundado
em St. Albans em 794. Um pouco mais tarde (796) Alcuino escreveu para
Eanbald II, Arcebispo de York, exortando-o a ter em mente a fundação de
hospitais onde os pobres e os peregrinos pudessem achar proteção e
socorro (Haddan e Stubbs, "Conselhos", Oxford, 1871, III, 504).
Os governantes dessa época também foram generosos neste
aspecto. Em 936 o rei Athelstan, regressando de sua bem-sucedida
campanha contra os escoceses, fez doações para os clérigos da Catedral
de São Pedro, em York, que foram usadas para fundar um hospital. Este
foi conhecido inicialmente como Hospital de São Pedro, e depois como de
São Leonardo, que foi o nome da igreja construída no hospital pelo Rei
Stephen.
Possuía 206 leitos e era cuidado por um mestre, treze irmãos,
quatro seculares, oito irmãs, trinta cantores e seis membros da ordem
dos mendicantes. O Arcebispo Lanfranc, em 1084, fundou o hospital de São
Gregório do lado de fora do portão norte de Canterbury e dotou-o com
terras e outras receitas. Era uma casa grande, construída de pedra e
dividida em duas seções, uma para homens e outra para mulheres.
No início do século XII (1123?), Hospital de São Bartolomeu foi
fundado por Rahere, que tinha sido bufão na corte do rei Henrique I,
mas havia ingressado em uma comunidade religiosa e agraciado pelo rei
com uma concessão de terras em Smoothfield, perto de Londres. Este
continuou a ser o hospital mais importante de Londres até ser confiscado
pelo rei Henrique VIII.
O Hospital da Santa Cruz, em Winchester, foi fundado em 1132
por Henry de Blois, meio-irmão do rei Stephen. E o Hospital de Santa
Maria, em 1197, por Walter Brune, cidadão de Londres, e sua esposa
Roesia.
Este último tinha 180 leitos para pessoas doentes e viajantes
na época da Dissolução. A Dissolução dos Mosteiros foi um conjunto de
processos administrativos e legais ocorridos entre 1536 e 1541 pelo qual
Henrique VIII dissolveu os mosteiros, priorados, conventos e
fraternidades católicos da Inglaterra, País de Gales e Irlanda,
apropriando-se da renda e dos bens de seus fundadores (incluindo aí os
hospitais).
Em 1215, Pedro, bispo de Winchester, fundou o hospital São
Tomé, em Londres, que também foi confiscado por Henrique VIII, mas foi
re-estabelecido por Edward VI. Atualmente, os hospitais de São
Bartolomeu e São Tomé estão entre os hospitais mais importantes de
Londres.
A lista de hospitais fundados pela Igreja Católica na Inglaterra é longa. Tanner em seu "Notitiae"
menciona 460. Para saber sobre seus estatutos e outros documentos, ver
Dugdale ("Monasticon Anglicanum", nova ed., Londres, 1846, VI, pt. 2).
Essas instituições estavam sob jurisdição episcopal, como pode ser visto
na promulgação do Conselho de Durham (1217): "aqueles que desejam
fundar um hospital devem receber de nós as suas regras e regulamentos"
(Wilkins, I, 583). No entanto, abusos começaram a ocorrer, tanto que um
texto enviado pela Universidade de Oxford ao reio Henrique V, em 1414,
queixava-se de que pobres e doentes foram expulsos de hospitais e
deixados sem recursos, enquanto os mestres e os superintendentes
apropriaram-se das receitas financeiras (Wilkins, III, 365).
Na Escócia, 77 hospitais foram fundados antes da Reforma;
Glasgow tinha dois, Aberdeen quatro, Edinburgh cinco. O hospital Santa
Maria Madalena, em Roxburgh, foi fundado pelo Rei David I (1124-1153); o
Sagrada Trindade, em Soltre, pelo rei Malcolm IV (1153-1163); o de
Rothean por John Bisset em 1226; Hollywood em Galloway pelo irmão de
Robert Bruce Edward (falecido em 1318); Santa Maria Madalena, em
Linlithgow, por James I (1424-1437). Aos três hospitais existentes em
Aberdeen, o Bispo Gavin Dunbar (1518-1532) acrescentou um quarto.
Os hospitais ficavam geralmente sob direção de um mestre,
assistido por enfermeiros. Havia também um capelão disponível, e os
enfermos eram incentivados a orar diariamente por seus fundadores e
benfeitores (Bellesheim, "História da Igreja Católica na Escócia",
Edinburgh, 1887, II, 185, 417; Walcott, "A Igreja Antiga da Escócia",
Londres, 1874).
A existência de numerosos hospitais na Irlanda é atestado pelos
nomes de cidades como Hospital, Spital, Spiddal, etc. O hospital era
conhecido como “Forus tuaithe” , ou seja, a casa do território,
para indicar que cuidavam dos doentes em um dado distrito . As chamadas
Leis de Brehon previam que o hospital devia estar livre de dívidas,
teria quatro portas, e deveria haver um fluxo de água que passasse por
ali (Leis, I, 131). Cães, loucos e mulheres rabugentas deveriam ser
mantidos longe do paciente para que ele evitasse preocupações (ibid.).
Quem quer que injustamente infligisse ferimentos em outra
pessoa teria de pagar pelos seus cuidadoso médicos, quer em um hospital
ou numa casa particular. No caso de a pessoa ferida ser encaminhada a um
hospital, sua mãe, se viva e disponível, deveria ir com ele (ibid.,
III, 357; IV, 303, 333, ver também Joyce, "Uma História Social da
Irlanda Antiga", Londres, 1903, I, 616 ss).
Numa etapa posterior, os Cavaleiros de São João fundaram um
grande número de hospitais, sendo o mais importante destes fundado no
Priorado de Kilmainham, em 1174, por Richard Strongbow. No final do
século XII, diversos estabelecimentos hospitalares fundados por essa
ordem podiam ser encontrados em várias partes da Irlanda.
Por volta de 1220, Henry Loundres, Arcebispo de Dublin, fundou
um hospital em honra de Deus e São Tiago em um lugar chamado Steyne,
perto da cidade de Dublin, e dotou-o com terras e receitas.
O Priorado de São João Batista estava localizado em na rua St.
Thomas, perto do portão oeste da cidade. Por volta do fim do século XII,
Ailred de Palmer fundou ali um hospital para os doentes. Em 1361, ao
saber que o hospital cuidava de 115 doentes pobres, o rei Edward III
concedeu-lhe uma concessão de terras por 20 anos. Esta concessão foi
renovada em 1378 e em 1403.
Por volta do ano 1500, Walter, Arcebispo de Dublin, concedeu um
terreno para que se construísse uma casa para cuidar de dez homens
pobres. Em 8 junho de 1504, John Allen, então decano da Catedral de St.
Patrick, fundou o hospital p ara o pobre doente, a ser escolhido,
principalmente, das famílias de Allen, Barret, Begge, Hill, Dillon e
Rodier, nas Dioceses de Meath e Dublin e para ser fiéis católicos, de
boa fama, e conversa honesta. Ele atribuiu terras para o seu apoio e
manutenção, e ainda dotou o hospital com uma mensagem na cidade de
Duleek, no condado de Meath (Archdall, "Monasticon Hibernicum", Londres, 1786).
Após a Reforma, todos esses fundos e instituições de caridade tornaram-se propriedade da Igreja Protestante da Irlanda.
A fomes e as epidemias, que atormentavam esses países durante a
Idade Média, propiciaram a criação de um número considerável de
instituições de caridade, em particular as casas para leprosos. Este
nome, entretanto, muitas vezes denominavam hospitais que cuidavam tanto
de pacientes normais como de pessoas doentes por lepra, visto que, tendo
sido originalmente inaugurado como casa de um leproso, tornou-se um
hospital geral quando a epidemia de lepra diminuiu.
Havia alguns hospitais de leprosos na Irlanda, mas não é fácil
distingui-los, em todos os casos, dos hospitais gerais para os pobres
doentes. Assim, o hospital construído pelos monges de Innisfallenin, em
869, normalmente era chamado de “nosocomium”, embora seja considerado
uma das primeiras fundações para cuidados de leprosos na Irlanda.
Um hospital em Waterford foi "confirmado para os pobres" pelos
monges beneditinos em 1185. St. Stephen em Dublin (1344) é especialmente
considerado como uma residência para "leprosos pobres da cidade",
construído por volta de 1360-1370. Uma localidade da cidade chamada
Leper-hill foi talvez o local de outro refúgio. Leprosos também podem
ter sido os ocupantes de hospitais em Westmeath (St. Bridget), o de
Santa Maria Madalena em Wexford (anteriores a 1408), e de Lismore
(1467), em Downpatrick, na Kilclief em County Down, em Cloyne, e de um
ou mais dos quatro hospitais de idade em ou perto de Cork.
O hospital em Galway foi construído "para os pobres da cidade",
por volta de 1543, e não era uma casa para leprosos, nem há razão para
considerar o antigo hospital em Dungarran como especialmente para
leprosos (Creighton, "A História de epidemias em Grã-Bretanha",
Cambridge, 1891, p. 100).
AÇÃO DO PAPADO
Inúmeros documentos pontifícios atestam o interesse e zelo dos
papas em relação aos hospitais. Dessa forma, a Santa Sé estendia seu
favor e proteção para as empresas de caridade dos fiéis, a fim de
garantir o seu sucesso e para protegê-los contra ameaças de qualquer
origem.
Esses documentos concediam a permissão aos hospitais para ter
uma capela, um capelão e um cemitério próprios. Isentava os hospitais da
jurisdição episcopal, tornando-os imediatamente sujeitos à Santa Sé;
aprovava estatutos, intervinha para corrigir abusos, defendia os
direitos de propriedade dos hospitais, e obrigava a restituição de suas
terras caso estas tivessem sido injustamente alienadas ou apreendidas.
Em particular, os papas eram liberais na concessão de indulgências, por
exemplo, para os fundadores e patronos, para aqueles que rezavam na
capela do hospital ou cemitério, a todos os que contribuem quando um
apelo era feito para apoiar o hospital, e a todos os que prestavam os
seus serviços de enfermagem aos doentes (Lallemand, op cit., III, 92 ss;
Uhlhorn, op. cit., II, 224).
CARACTERÍSTICAS DOS HOSPITAIS MEDIEVAIS
Não é possível dar conta de detalhes que descrevem com precisão
cada uma dessas instituições, pois elas diferem muito em tamanho,
administração, e equipamentos. A característica em comum era o esforço
para fazer o melhor possível para atender o doente em cada circunstância
e naturalmente cada hospital melhorava de forma diferente, em um ou
outro aspecto, com o passar do tempo.
Certas características fundamentais, no entanto, foram mantidas
durante toda a Idade Média, ilustrando o desenvolvimento e a
disseminação de boas práticas. Por exemplo, havia sempre a preocupação
em garantir uma boa localização para essas instituições, de preferência
às margens de um rio. O Hôtel-Dieu de Paris era próximo ao rio Sena; o
Santo Spirito, em Roma, perto do rio Tibre; o São Francisco, em Praga,
perto do rio Moldau; os hospitais de Mains e Constance, perto do rio
Reno; o Ratisbona, perto do rio Danúbio.
Em alguns casos, como em Fossanova e Beaune, um curso de água
passava por baixo do edifício. Muitos dos hospitais, particularmente os
menores, eram localizados na porção central da cidade ou vila, com fácil
acesso para as pessoas das classes mais pobres. Outros ainda, como
Santa Maria Nuova, em Florença, e um bom número dos hospitais ingleses,
foram construídos fora dos muros da cidade com o propósito expresso de
proporcionar melhor ar para os enfermos e evitar a propagação de doenças
infectocontagiosas de todos os tipos.
A respeito das construções em si, deve-se notar que muitos dos
hospitais acomodavam apenas um pequeno número de pacientes (sete, quinze
ou 25), o limite era geralmente determinada pelos recursos do fundador
ou benfeitor. E m alguns casos, tratava-se de uma moradia particular ou
no máximo um edifício de dimensões modestas. Mas quanto maior eram os
recursos disponíveis maiores eram os investimentos feitos, e alguns
hospitais eram planejados por hábeis arquitetos e construídos em uma
escala maior.
A ala principal do Hospital Espírito Santo, em Roma, tinha 409
pés de comprimento por 40 pés de largura; a do hospital de Tonnerre, 260
pés por 60; o de Angers, 195 pés por 72; o de Ghent, 180 pés por 52; em
Frankfurt, 130 pés por 40, em Chartres, 117 pés por 42. Em hospitais
desse tipo, uma fonte abundante de luz e ar era fornecida por grandes
janelas, que possuíam sua parte superior fixa enquanto a parte inferior
podia ser aberta ou fechada. Em alguns casos (por exemplo, o hospital do
Espírito Santo, em Roma), foi adicionado uma cúpula que subia do meio
do teto e era apoiada por colunas graciosas.
O interior geralmente era decorado com nichos, pinturas e
mancais. A mesma habilidade artística que adornava as igrejas era
utilizada para embelezar as enfermarias dos hospitais.
O hospital de Siena "constitui um exemplo da arquitetura dos
edifícios do período, com um magnífico conjunto de afrescos, alguns
deles do século XIV, e muitos outros de séculos mais tarde" (Gardner,
"História de Siena", Londres, 1902).

Ala dos pacientes do Hôtel-Dieu de Tonnerre
|
O hospital de Tonnerre, fundado em 1293 por Margarida de Borgonha, uma cunhada de São Luís, combinava muitas vantagens.
Ficava situado perto de um pequeno riacho e sua ala principal,
com teto em arco de madeira, era iluminada por grandes janelas. Ao
nível do peitoril das janelas (que ficava a cerca de 12 pés do chão),
uma galeria estreita corria ao longo da parede, possibilitando uma
ventilação ao local, a qual podia ser regulada. Nessa galeria os doentes
em convalescença podiam caminhar ou ficar sentados ao sol. |
As camas eram separadas por divisórias baixas que garantiam a
privacidade dos enfermos, mas podiam ser movidas para o lado, de modo a
permitir que os pacientes pudessem assistir à missa que era celebrada no
final da ala. Este arranjo, de uma capela em conexão com a ala
principal, foi adotado em muitos estabelecimentos, e o sistema de alcova
não era tão frequentemente encontrado, com as camas colocadas, via de
regra, em várias fileiras em um grande salão aberto.
A construção de hospitais chegou a um alto grau de perfeição em
meados do século XV. Provavelmente o melhor exemplo disso é o famoso
hospital de Milão, fundado em 1445, embora só tenha sido concluído no
final do século XV.
O Dr. W. Gill Wylie, em seu trabalho sobre a história dos hospitais (“Hospitals Their History, Organization and Construction”,
Boylston Prize-Essay of Harvard University for 1876), disse: "Em 1456 o
Hospital Grande de Milão foi fundado. Este edifício notável ainda está
em uso como um hospital geral e contém mais de 2.000 pacientes”.
“As construções eram feitas em forma de quadrados, sendo a
principal delas muito maior que as outras, e separava o hospital em duas
partes. As alas principais de ambos os lados formam uma grande cruz, no
centro da qual havia uma cúpula, com um altar abaixo dela, onde o
serviço religioso era realizado diariamente à vista dos pacientes. Estas
alas tinham corredores em ambos os lados que não tinham altura tão
elevada como as enfermarias, mas havia uma abundância de espaço para
janelas acima destas passagens. Os tetos ficavam a trinta ou quarenta
pés de altura, e o chão era coberto com tijolos vermelhos. Fora das
enfermarias haviam corredores espaçosos. As enfermarias eram aquecidas
por braseiros de carvão. Este hospital foi construído no momento em que a
Igreja de Roma estava no auge de seu poder, pouco tempo antes da
Reforma Protestante, e é um bom exemplo do quanto havia sido alcançado
no desenvolvimento dos hospitais e mostra o quanto tudo isso foi devido à
Igreja” .
A administração do hospital, quando este fazia parte de um
mosteiro, estava naturalmente nas mãos do abade ou prior e seus
pormenores eram prescritos por regras monásticas. Também os estatutos
ordens hospitalares (Cavaleiros) regulamentavam minuciosamente os
deveres do "Comandante" que dirigia cada hospital. Em outras
instituições o funcionário responsável era conhecido como magister,
provisor, ou reitor. Este último título era usado na Alemanha, para o
designar o superior, no caso de ele ser um padre, enquanto na Itália,
era usado o título de spedalingo . Esses funcionários eram nomeados pelo
bispo, pelo chapter , ou pela municipalidade, às vezes pelo fundador ou
patrono. Leigos, bem como clérigos, eram elegíveis.
Os regulamentos mais adotados foram os da Ordem de São João de
Jerusalém, a Regra de Santo Agostinho e a dos dominicanos. O primeiro
dever do reitor ou magister , ao assumir o cargo, era fazer um
inventário dos bens e equipamentos do hospital. Além da superintendência
geral do hospital, ele era responsável pelas contas e por toda a
administração financeira, incluindo as propriedades do próprio hospital e
os depósitos em dinheiro que muitas vezes eram confiados a ele para
manter em segurança. Era também seu dever receber cada paciente e
atribuir-lhe um lugar adequado no hospital.
Os irmãos e irmãs estavam ligados por os votos de pobreza,
castidade e obediência que recebiam das mãos de um sacerdote. Como em
todos os estabelecimentos religiosos, a lista de direitos e deveres era
estritamente prescrita, assim como também os detalhes de vestimentas,
recreação e alimentação. Nenhum funcionário do hospital era autorizado a
sair desacompanhado. Penalidades eram infligidas a quem violasse essas
regras.
Na recepção de pacientes, a maior caridade possível era
mostrada. Como descreve Coyecque (Op. cit, I, p. 63) sobre o “Hotel de
Deus” (Hôtel-Dieu) de Paris: "soldados e cidadãos, religiosos e leigos,
judeus e maometanos, eram encaminhados em caso de necessidade para o
Hôtel-Dieu , e todos os que traziam as marcas da pobreza e da miséria
eram admitidos; não havia outra exigência".
Além disso, os funcionários do hospital eram obrigados, de
tempos em tempos, a ir para as ruas e trazer aqueles que precisavam de
tratamento. Ao entrar no hospital, o paciente, se fosse cristão, fazia a
confissão e recebia a Sagrada Comunhão, a fim de que a paz de espírito
pudesse beneficiar sua saúde corporal.
Uma vez admitido, ele era tratado quase como um dono da casa
(quase domingos secundo posse domus), conforme os estatutos mandavam.
Conforme sua capacidade, os doentes exerciam as funções de oração,
participavam da Missa e recebiam os sacramentos. Eles recebiam a
recomendação de orar por seus benfeitores, pelas autoridades, e por
todos os que podiam estar em perigo. À noite, recitavam orações nas
enfermarias. Eles eram frequentemente animados com a visita de pessoas
ilustres ou da nobreza, que tinham disposição de caridade, como foram
exemplos a rainha Catarina da Suécia, Margaret, Rainha da Escócia,
Margaret, duquesa de Lorraine, e o rei Luís IX da França.
A regulamentação relativa ao bem-estar físico dos enfermos
prescrevia que o paciente nunca devia ser deixado sem um atendente
(Amiens, XXXV); que os enfermeiros deviam estar de plantão em todas as
horas do dia e da noite; que caso a doença se tornasse mais grave o
paciente deveria ser removido da enfermaria para um quarto privado e
receber atenção especial (Paris, XXII; Troyes, I, XXXIII; Vernon, XI).
O hospital de Santa Maria Nuova, em Florença tinha uma seção
separada (pazzeria) para os pacientes delirantes. Disposição semelhante
era feita para os casos de maternidade, e as pacientes eram mantidas no
hospital por três semanas após o parto. Uma devida atenção era dada à
limpeza e conforto, como mostram os registros da época que tratam de
banhos, camas, lençóis, ventilação e aquecimento por meio de lareiras ou
braseiros.
O tratamento médico era ministrado por monges ou outros
eclesiásticos, ao menos no início do tratamento. A partir do século XII
em diante algumas restrições foram colocadas sobre a prática da medicina
por clérigos, especialmente em relação a operações cirúrgicas, bastante
severas no que dizia respeito à aceitação de pagamento para atendimento
dos doentes - ver os decretos dos concílios: Clermont (1130), Reims
(1131), segundo e quarto de Latrão (1139 e 1215).
Às vezes, era necessário um médico ou cirurgião mais
especializado para atender certos casos. Passou a ser mais comum o
surgimento de escolas de medicina nas universidades, como em Salerno e
Montpellier. Um documento importante é o relatório enviado em 1524 a
partir de Santa Maria Nuova, em Florença, para o rei Henrique VIII, que,
querendo reorganizar os hospitais de Londres, tinha procurado
informações sobre a famosa instituição florentina. A partir desse
documento sabe-se que três jovens médicos ficavam residentes (adstantes)
no hospital, no atendimento constante aos enfermos e faziam um
relatório diário sobre a condição de cada paciente enviados a médicos da
cidade que davam prescrições ou ordenavam modificações no tratamento.
Anexado ao hospital havia um dispensário (medicinarium) para o
tratamento de úlceras e outras doenças leves. Este era coordenado pelo
principal cirurgião da cidade e três assistentes, que davam seus
serviços gratuitamente aos moradores carentes e lhes forneciam os
remédios da farmácia do hospital. Um relato interessante das funções do
farmacêutico, com uma lista dos medicamentos à sua disposição, é dado
por Lallemand em sua obra “A história da caridade” (L'Histoire de la
Charité, II, 225).
Para atender suas despesas, cada hospital tinha seus próprios
meios de investimento, na forma de terras, por vezes de aldeias
inteiras, fazendas, vinhedos e florestas. Suas receitas eram às vezes
aumentadas por impostos especiais sobre produtos como óleo, trigo e sal;
por contribuições regulares de associações de caridade; e pela renda
das igrejas sob seu controle. Em muitos casos, as leis diocesanas
obrigavam cada um dos clérigos a contribuir para o apoio do hospital.
Os leigos também contribuíam, com liberalidade, quer para os
objetivos gerais do hospital como para suprir alguma necessidade
especial, tais como aquecimento, iluminação ou provisões. Não era
incomum um benfeitor doar uma ou mais camas, ou para contribuir com uma
renda anual, o que lhe garantia cuidados e tratamento em caso de
necessidade. Frequentemente a generosidade do hospital e de seus
patronos era abusada, por exemplo, por simuladores ou vagabundos, e
regras mais estritas em matéria de admissão tornaram-se necessárias.
Em alguns casos o número de atendentes era excessivo, em
outros, o hospital era incapaz de fornecer uma cama separada para cada
paciente. Apesar destes inconvenientes, "temos muito a aprender com a
caluniada Idade Média - muito do que nós, com meios muito mais
abundante, poderíamos fazer por causa de Deus e do homem" (Virchow,
Abhandl. II, 16).
PERÍODO PÓS-REFORMA
Os prejuízos infligidos a todo o sistema de instituições de
caridade pela reviravolta do século XVI, foram desastrosos em muitos
aspectos para o trabalho dos hospitais. A dissolução dos mosteiros,
especialmente na Inglaterra, privou a Igreja, em grande medida, dos
meios para ajudar os doentes e da organização através da qual esses
meios eram empregados.
Espoliações semelhantes ocorreram na Alemanha tão rapidamente
com a introdução da nova religião que os próprios reformadores se
encontraram em dificuldades para fornecer qualquer coisa que servisse de
substituto para as antigas fundações católicas.
O próprio Lutero confessou mais de uma vez que, sob o papado,
generosas ofertas eram feitas para todas as classes de sofrimento,
enquanto que entre os seus próprios seguidores, ninguém contribuía para a
manutenção dos doentes e dos pobres (Sammtl. Werke, XIV, 389-390; XIII ,
224-225). Como resultado, os hospitais nos países protestantes foram
rapidamente secularizados, embora esforços não faltassem, por parte das
paróquias e municípios, para obter fundos para fins caritativos
(Uhlhorn, III).
A Igreja, entretanto, embora privada das receitas necessárias,
tomou medidas enérgicas para restaurar e desenvolver o sistema
hospitalar. O humanista J.L. Vives (“De subventione pauperum”,
Bruges, 1526) declarou que por disposição divina, cada um deveria comer o
seu pão depois de ganhá-lo com o suor de sua testa, que os magistrados
deveriam analisar quem entre os cidadãos eram capazes de trabalhar e os
que realmente são desamparados. Para os hospitais em particular, Vives
recomendava uma economia rígida em sua administração, uma melhor
prestação de atendimento médico e uma mais justa repartição dos fundos
disponíveis através do qual o excedente das instituições mais ricas
deveriam ser distribuídas às mais pobres. O plano de Vives foi primeiro
colocado em execução em Ypres, na Bélgica, e depois expandido por
Charles V para todo o império (1531).
Ainda mais decisiva foi a ação tomada pelo Conselho de Trento,
que renovou os decretos de Viena e, além disso ordenou que todas as
pessoas encarregadas da administração de um hospital deveriam realizar
uma rigorosa prestações de contas e, em caso de ineficiência ou
irregularidade no uso dos fundos, não só deveriam estar sujeitos a
censura eclesiástica, mas também deveriam ser afastados do cargo e
obrigados a fazer a restituição (Sessão XXV, c. viii, De Reform.).
O mais importante, no entanto, dos decretos tridentinos foi o
que colocou o hospital sob controle episcopal e proclamou o direito do
bispo de visitar cada instituição, a fim de verificar se é bem gerida e
se cada um ligado a ele cumpre fielmente seus deveres (Sessão XXII, c.
viii, De Reforma, Sessão VII, c. xv, De Reforma).
Esses decretos foram repetidos por sínodos provinciais e
diocesanos em toda a Europa. Dando-lhe efeito prático, São Carlos
Borromeo deu o exemplo, fundando um hospital em Milão e obrigando os
diretores a apresentar relatórios de sua administração. Ele também
determinou as condições para a admissão de pacientes de tal modo a
excluir candidatos indignos (Primeiro Concílio de Milão, parte III, c.
i, em Harduin, X, 704).
Em Roma as fundações principais durante este período foram: o
hospital estabelecido em 1581 na ilha no rio Tibre, onde a Esculapium da
Roma pagã havia estado, o hospital para os sacerdotes pobres fundada
por um leigo, Giovanni Vestri (morto em 1650); a de Lorenzo, em Fonte
(1624) para as pessoas que tinham passado pelo menos 14 anos ao serviço
dos papas, cardeais, bispos e a de San Gallicano para doenças de pele,
erigida pelo Papa Bento XIII em 1726.
Na França, o controle dos hospitais já tinha passado para as
mãos do Rei. Luis XIV estabeleceu em Paris um hospital especial para
quase todas as necessidades: inválidos, convalescentes, doentes
incuráveis , etc, além de um vasto "hospital geral" para os pobres.
Ele contou com os esforços do episcopado para colocar em vigor os
decretos tridentinos sobre a superintendência e visitação dos hospitais.
Por outro lado, este período foi notável pelos resultados alcançados
por São Vicente de Paulo, e especialmente pela comunidade que ele fundou
para cuidar dos pobres doentes, as Irmãs da Caridade.
Desde a Reforma, de fato, as mulheres tiveram um papel mais
proeminente do que nunca no cuidado dos doentes. Mais de uma centena de
ordens ou congregações femininas foram criadas para esta finalidade (ver
lista em André-Wagner, “Dict. de droit canonique", Paris, 1901, II,
s.v. Hospitalários).
Uma tentativa notável de reforma durante o século XVIII foi a
do Hôtel-Dieu de Paris no reinado de Luís XVI. Este hospital, que
geralmente tinha 2.400 pacientes e, às vezes, 5.000, há muito sofria de
superlotação, ventilação deficiente, e negligência aos pacientes. Para
sanar esses defeitos, uma comissão foi nomeada, que incluía Tenon,
Lavoisier e Laplace. A principal recomendação contida no seu relatório
(1788) foi a adoção do sistema modelado de pavilhões como o do hospital
de Plymouth, Inglaterra (1764). A Revolução Francesa, porém, interveio e
foi só durante o século XIX que as melhorias necessárias foram
introduzidas.
Em outros países europeus, por sua vez, ocorreram muitas
fundações: na Inglaterra, em Westminster (1719), Guy (1722), de São
Jorge (1733); na Alemanha, a Charité em Berlim estabelecida por
Frederico I (1710) e o hospital em Bamberg, pelo Bispo Franz Ludwig von
Erthal (1789); na Áustria o hospital Geral de Viena, fundado por Joseph
II, 1784.
AMÉRICA
O primeiro hospital na América foi construído antes de 1524, na
Cidade do México, por Cortés, em gratidão, como ele declarou em seu
testamento "pelas graças e misericórdias que Deus tinha lhe concedido e
permitindo-lhe descobrir e conquistar a Nova Espanha, e em expiação por
qualquer pecado que tivesse cometido, especialmente aqueles que ele não
lembrava, ou qualquer culpa que pudesse haver em sua consciência, para a
qual ele não poderia fazer uma expiação especial.
Foi chamado de Hospital da Puríssima Conceição, e depois de
Jesus Nazareno, devido a um santuário vizinho. Ele ainda existe e seus
superintendentes são nomeados pelos descendentes de Cortes, os Duques de
Terranova y Monteleon. O Papa Clemente VII, na Bula de 16 de abril de
1529, conferiu a Cortes o perpétuo patrocínio deste e de outras
instituições similares fundadas por ele. Dentro da primeira década após a
conquista, o Hospital de São Lázaro foi fundado com acomodações para
400 pacientes e o Hospital Real, também na cidade do México, foi criado
por um decreto de 1540.
Uma lei de 1541 ordenava que hospitais deveriam ser erguidos em
todas as cidades espanholas e indianas (Bancroft, "História do México",
II, 169, III, 759). O Primeiro Conselho Provincial de Lima (1583) e o
Conselho Provincial do México (1585) decretaram que cada sacerdote
deveria contribuir com a décima segunda parte de sua renda para os
hospitais (D'Aiguirre, "Concil. Hispan.", IV, 246, 355).
Os Irmãos de São Hipólito - uma congregação criada em 1585 por
Bernardin Alvarez, um cidadão do México, e aprovada por Clemente VIII em
1594 - dedicava-se ao cuidado dos doentes e construiu numerosos
hospitais. Os belemitas, ordem fundada por Pedro de Betancourt (morto
1667) e aprovado por Clemente X em 1673, estabelecidos na Guatemala e ao
longo de quase toda a América Latina, realizaram um excelente serviço
trabalhando nos hospitais, até a sua supressão, bem como a de todos os
outros religiosos no México, em 1820.
CANADÁ
O primeiro hospital do Canadá foi o Hôtel-Dieu, fundado
pela Duquesa de Aiguillon em 1639 em Sillery, e mais tarde transferido
para Quebec, onde ainda está sob responsabilidade dos Hospitalières de
la Miséricorde de Jesus.
O Hôtel-Dieu, em Montreal, foi fundado em 1644 por Jeanne
Mance; o Hospital Geral de Quebec, em 1693. Existem atualmente 87
hospitais no Canadá sob o controle e a direção de várias comunidades
religiosas católicas. |

Hôtel-Dieu, 1875 (National Gallery of Canada)
|
O primeiro hospital dos Estados Unidos
foi erguido na ilha de Manhattan por volta de 1663, "a pedido do
cirurgião Hendricksen Varrevanger, para a recepção dos soldados doentes
que haviam sido previamente alojados em casas de famílias privadas, e
para os negros da Companhia das índias Ocidentais" (Callaghan, "New
Netherland Register").
Casas para tratamento de doenças contagiosas foram
estabelecidas em New York, Salem (Massachusetts), e Charleston no início
do século XVIII. Em 1717 um hospital para doenças infecciosas foi
construído em Boston e o Hospital da Pensilvânia começou a ser
construído em 1751 (concluído em 1805).
O primeiro hospital criado pela beneficência privada foi o
Hospital de Caridade em Nova Orleans, por volta de 1720. Para sua
fundação Jean Louis, um marinheiro,que virou oficial da Companhia das
Índias, deixou 12 mil libras. Esse hospital foi destruído pelo furacão
de 1779. O Novo Hospital de Caridade (San Carlos) foi fundado em 1780
patrocinado por Dom Andres de Almonester y Roxas: tornou-se Hospital da
Cidade em 1811. Ainda está no comando das Irmãs de Caridade, é um dos
hospitais mais importantes do país, recebendo anualmente cerca de 8.000
pacientes.
O mais antigo hospital na cidade de New York é o New York
Hospital, fundado em 1770 por contribuições particulares e doações
vindas de Londres. Recebeu da Assembléia Provincial um subsídio de 800
libras por 20 anos e da Assembléia Legislativa do Estado (1795) um
subsídio anual de 4000 libras, aumentado em 1796 para 5000 libras.
O Bellevue Hospital, originalmente enfermaria da Casa de
Esmolas da Cidade de Nova York (Alms House), foi fundado no local da
atual em 1811. O Hospital São Vicente foi inaugurado em 1849; os
edifícios atuais foram erguidos entre 1856 e 1860 e proviam alojamento
para 140 pacientes. O número médio anual de pacientes excedia 5000. Há
agora mais de 400 hospitais católicos nos Estados Unidos que cuidam de
cerca de meio milhão de pacientes anualmente.
A multiplicação dos hospitais nos últimos tempos, especialmente
durante o século XIX, ocorreu devido a uma variedade de causas. A
primeira delas foi o crescimento da indústria e a consequente expansão
da população das cidades. Para atender as necessidades das classes
trabalhadoras, hospitais com instalações maiores foram criados, e
algumas associações constituíram fundos para garantir o cuidado adequado
aos membros doentes. Em alguns países (por exemplo, Alemanha e
Inglaterra) o seguro para operários, como prescrito por lei,
permitia-lhes, em caso de doença, receber tratamento hospitalar.
Outro fator importante foi o avanço da ciência médica, que
trouxe consigo a necessidade de ensino clínico. A este respeito as
universidades têm exercido uma influência salutar: nenhum curso de
medicina é possível atualmente sem que haja uma formação prática em
algum hospital.
Por outro lado, a eficiência dos hospitais melhorou devido a
numerosas descobertas relativas à higiene, anestesia e antissepsia,
contágio e infecção.
A experiência com as guerras ocorridas também propiciaram
melhorias. As lições aprendidas nas guerras da Criméia e na Guerra Civil
Americana foram aplicadas à construção de hospitais, e levaram à adoção
do sistema de pavilhão.
BRASIL
O Primeiro hospital do Brasil é a Santa Casa da Misericórdia de
Santos, do Estado de São Paulo, que foi inaugurado em novembro 1543. A
construção teve início em 1542, por iniciativa do português Braz Cubas,
líder do povoado do porto de São Vicente, posteriormente Vila de Santos.
Ele teve o auxílio dos próprios moradores da região. Sua data de
fundação foi o dia primeiro de janeiro, conhecido como o dia de todos os
santos, e por isso o hospital recebeu o nome de Hospital de Todos os
Santos, também para homenagear o maior hospital de Lisboa, em Portugal.
Desse nome, saiu também o nome da cidade de Santos.
Frei Gaspar, em sua Memórias para a História da Capitania de
São Vicente, diz que Braz Cubas, "com esmolas e ajutórios dos confrades,
edificou uma igreja com o título de N. S. da Misericórdia e junto a ela
um hospital". A administração e assistência ao hospital ficou a cargo
da Confraria da Misericórdia, confirmada por D. João III em Almerim, a 2
de abril de 1551.
O hospital prestou atendimento aos colonos, nativos e escravos,
passando pelos nobres do Império Português e do Brasil Imperial,
tradicionais monarquistas e republicanos, até patrões, operários,
empregados e desempregados. Serviu para a prática e o ensino da Medicina
durante quase três séculos, antes da fundação da primeira faculdade de
Medicina do país.
No ano de 1560 foi criada a Confraria da Misericórdia de São
Paulo dos Campos de Piratininga, alojada no Pátio do Colégio, depois nos
Largos da Glória e Misericórdia, até ser inaugurada na Vila Buarque, em
1884 o Hospital Central - sua sede até os dias de hoje.No Rio de
Janeiro a Santa Casa de Misericórdia foi instalada pelo Padre José de
Anchieta para socorrer os tripulantes da esquadra do Almirante Diogo
Flores Valdez, aportada à baía de Guanabara em 25 de março de 1582, com
escorbuto a bordo.
A Irmandade da Santa Casa da Misericórdia chegou aos tempos
atuais com várias misericórdias espalhadas no Brasil e em Portugal,
dedicadas, sobretudo, a vocação hospitalar. A primeira Misericórdia que
se tem notícia é a de Florença, fundada por São Pedro Mártir por volta
de 1240, saída de uma “Società della Fede”. Em 1321 já se chamava “Santa
Maria della Misericórdia”. Em 1502 havia misericórdias em Ceuta,
Tanger, Arzila e Alcácer Seguer, além de outras onze no Reino Lusitano.
Em 1520 já se tem notícia de uma misericórdia ativa em Goa.
No século XX surgiram os hospitais particulares, com objetivos
lucrativos, de propriedade de médicos. A partir de 1960 começaram a
surgir os hospitais próprios da medicina de grupos, envolvendo tanto os
grupos médicos quanto as cooperativas médicas.
CONCLUSÕES
A Organização Mundial da Saúde define que "o hospital é parte
integrante de um sistema coordenado de saúde cuja função é dispensar à
comunidade completa assistência à saúde, tanto curativa quanto
preventiva, incluindo serviços extensivos à família em seu domicílio e
ainda um centro de informação para os que trabalham no campo da saúde e
para as pesquisas bio-sociais".
Instituição multiprofissional, privada ou pública, os bons
hospitais atualmente são os que adotam uma eficiente administração
aliada à constante inovação dos serviços hospitalares, qualidade e a
oferta de mais do que o simples atendimento às necessidades dos
pacientes.
Hoje em dia é impossível imaginar uma sociedade sem a presença
de hospitais. Essa grandiosa instituição deve sua história à Igreja e
aos religiosos e religiosas, leigos e leigas que, movidos pela caridade
cristã, dedicaram suas vidas a cuidar dos doentes.
Os hospitais de hoje devem muito de seu sucesso ao
progresso científico, a investimentos generosos e administração
eficiente, mas nenhum destes pode servir de substituto ao trabalho
abnegado dos homens e mulheres que cuidam dos doentes. |
|