sábado, 29 de agosto de 2015

O HUMANITISMO BORBEANO E O ESPIRITISMO


JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF
— Então você ainda não entendeu, ignaro, que minha filosofia é muito superior a todas as outras? Pois fique sabendo, Rubião, que sou a reencarnação de Santo Agostinho e retornei à Terra com o exclusivo intento de lhe trazer a mais perfeita e, consequentemente, melhor filosofia de vida que a humanidade pode almejar: o Humanitismo.
Assim falava Quincas Borba a Rubião, quando lhe escreveu sua derradeira carta, antes de lhe transmitir toda a sua fortuna e lhe impor uma única condição: cuidar de seu cachorro, também chamado Quincas Borba. Imaginava o dono que, tão logo morresse, poderia continuar vivendo caninamente. “[...] Se eu morrer antes, como presumo, sobreviverei no nome do meu bom cachorro. Ris-te, não?”(cap. V).
O que eu, Machado, consegui ocultar com perfeição, até ser “desmascarado” por Joteli, é que o Humanitismo é um neologismo criado por mim como paródia ao Espiritismo, que ainda não conseguira entender, plenamente, em 1881 e 1991, anos das publicações, respectivas, dos meus romances intitulados Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Quer exemplos?
Leia, amigo leitor e bela leitora, o que disse o personagem Quincas: “Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que há de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permitia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe esta concessão, que é a última. Ignaro!” (cap. X).
Já em conversa com Brás Cubas (cap. XLVII de Memórias póstumas...), eu repetia: “O Humanitismo há de ser também uma religião, a do futuro, a única verdadeira”.
Em 1878, eu já criticava o Espiritismo, que confundia com sonambulismo, juntando, assim, efeito com causa, pois nem todo sonâmbulo é espírita e, consequentemente... (Notas semanais, V, de 16 jun. 1978).
Mas foi em 5 de outubro de 1885 que, ao adentrar pela fechadura, no salão de conferências da FEB, ouvi o orador dizer que o Espiritismo substituiria todas as religiões do passado (Balas de estalo). Daí, em 1891 ter dito Quincas Borba que o Humanitismo é que era a religião verdadeira.
Agora leia o que mais escrevi com ironia numa de minhas crônicas, sobre o Espiritismo: “Essa doutrina, eu, que algumas vezes me ri dela, venho proclamá-la bem alto como a última e verdadeira.” (A Semana, 23 set. 1894).
Como errar é prerrogativa da juventude, Allan Kardec também, aos 30 anos, defendendo, num de seus artigos, as aulas de ciências para as crianças, disse o seguinte: “Aquele que houver estudado as ciências rirá, então, da credulidade supersticiosa dos ignorantes. Não mais crerá em espectros e fantasmas. Não mais aceitará fogos fátuos por espíritos”.
Entretanto, em 1855, após assistir aos fenômenos mediúnicos, manifestados por duas adolescentes, na casa da Sr.ª Plainemaison, admitiu que a realidade visível é complementada pela do invisível aos nossos sentidos normais, que somente os médiuns podem captar, embora, de um modo geral, todos sejamos médiuns, seja por meio dos sonhos, da intuição ou dos fenômenos chamados metapsíquicos, que ele cunhou de mediúnicos.
Como as obras codificadas por Kardec só começaram a ser publicadas, no Rio de Janeiro, em 1875, traduzidas por Fortúnio, pseudônimo de Joaquim Carlos Travassos, somente gradativamente fui tomando conhecimento da nova filosofia. Meus conhecimentos, a partir da década de 1860, tinham por base as informações provindas da França, que Casimir Lieutaud, poeta e educador francês, compartilhava comigo e que eu, conhecedor das ideias iluministas francesas, além de leitor há décadas das Escrituras Sagradas, buscava ironizar, mesmo quando meu amigo publicou a obra com princípios espíritas intitulada Les temps sont arrivés. Para mim, os tempos não tinham passado, presente ou futuro, como procurei simbolizar no delírio de Brás Cubas, cap. 7, então, como poderiam ser chegados?
Daí o meu lento progresso na absorção da teoria espírita que, durante muito tempo, foi confundida com curandeiria e cartomancia, práticas tidas como diabólicas ou de comércio do sagrado e fraudes que tanto Moisés quanto Jesus condenavam.
Para finalizar, compartilho com a amiga e amigo leitores uma síntese do método kardequiano, muito bem elaborada pelo site: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/allan-kardec-espiritismo-religiao-bem-brasileira-806044.shtml:
MÉTODO CIENTÍFICO
As principais explicações de Kardec para os fenômenos psíquicos e mediúnicos
Fraude: O pesquisador acreditava que os casos de truques deveriam ser sempre denunciados: “O espiritismo só terá a ganhar com o desmascaramento dos impostores”,escreveu. Kardec dizia que médiuns que realizam espetáculos públicos pagos deveriam ser observados com suspeita redobrada.
Alucinação: O pedagogo estabelecia critérios para diferenciar alucinações e problemas mentais em geral de contatos legítimos com espíritos. Por exemplo: se uma pessoa escreve mensagens em línguas que não conhece, ou se o fenômeno físico (por exemplo, uma mesa se mexendo) foi visto por várias pessoas.
Influência externa: Kardec reconhecia a possibilidade da existência de dois fenômenos psíquicos: a telepatia, que ele chamava de “reflexo do pensamento”, e a clarividência, a percepção extrassensorial de objetos a distância. Para ele, nenhuma das duas era resultado de contatos com o mundo espiritual.
Comunicação: O contato com almas desencarnadas só pode ser considerado quando as hipóteses de fraude, alucinação e influência de outras pessoas tiverem sido descartadas. As mensagens do além só poderiam ser consideradas confiáveis se fossem espontâneas e confirmadas por médiuns que não se conhecessem entre si.
E assim, gradativamente, vamos saindo da ignorância e do preconceito para a razão e o conhecimento da verdade, que o Espiritismo esclarece residir não nessa ou naquela religião, ciência ou filosofia, mas em Deus.
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