sábado, 15 de agosto de 2015

RINDO E APRENDENDO COM NOSSOS ERROS DE PORTUGUÊS


JORGE LEITE DE OLIVEIRA
jojorgeleite@gmail.com
De Brasília-DF
— Que Deus nos ajuda a resolver os graves problemas morais desta nação!
Assim começa o breve discurso daquele parlamentar, o que é para lamentar. Se ainda fosse “nos acuda”...
Mas Ele acudiu-o. Enviou-me a esclarecer-lhe que todos os verbos terminados em “ar”, na terceira pessoa do singular do presente do subjuntivo, devem ser flexionados com terminação em   “-e”. Exemplos: ajudar, comprar e pensar: Que Deus (ele) nos ajude; que ela compre; que ele pense...
Já os verbos com terminações –er, -ir: comer, fazer, sair, fugir, acudir, entre outros, da segunda e terceira conjugações, devem ser flexionados, na terceira pessoa do singular do presente do subjuntivo, assim: Que ela coma... Que ele faça... Que ela saia... Que o Dirceu não fuja e que o Senhor nos acuda...
— É nessas horas que Deus nos ajuda... Muito bem, Joteli, aqui você está usando o presente do indicativo, e não o presente do subjuntivo citado acima.
Continuando sua peroração, o deputado diz: — Há vinte anos atrás, eu estive em Cuba... E eu monologo baixinho:
— Mas se foi “há” vinte anos, por que o “atrás”, se os gramáticos nos ensinam que o verbo haver, no sentido de tempo passado, dispensa o advérbio atrás? Bastar-lhe-ia dizer: — Há vinte anos, estive em Cuba... Também a própria flexão do verbo em primeira pessoa já indica quem esteve em Cuba: “eu estive”... Nesse caso, o “eu” é opcional.
Mais adiante, o membro do legislativo sai-se com esta: — Neste país, houveram muitos avanços na área da medicina...
E eu digo para o meu umbigo:
— Coitado, não aprendeu na escola que o verbo “haver” com o significado de “existir”, “ocorrer”, não se flexiona no plural; caso contrário, ele diria que houve muitos avanços... Por outro lado, se ele não está no país a que se refere, deve dizer “Naquele país”, “Nesse país”, e não “Neste país”.
Corrigindo o congressista: Nesse país (Cuba, onde ele esteve vinte anos atrás), houve muitos avanços na medicina... Percebeu, safo leitor, que, na frase entre parênteses, dispensei o há e apenas mantive o atrás? É isso, quando o há está presente na referência a tempo passado, não precisa do atrás; e o contrário também é certo: havendo atrás não é necessário há na indicação de tempo passado. A objetividade é outra qualidade importante da comunicação, por isso, cortei o “área” na frase corrigida acima.
Outro problema de muita gente boa é com a pronúncia de certas palavras. Um juiz disse à sua secretária:
— Dona Tempesta, peça ao Dr. Epílogo para apor sua rúbrica na petição.
Como é que pode? O homem chegou a juiz, está sempre falando uma palavra usual no fórum equivocadamente e jamais o chamaram à parte para lhe dizer:
 — Excelência, a pronúncia desta palavra não é “rúbrica” e, sim, “rubrica”.
O promotor, para não ficar atrás do magistrado, acusou o réu com a seguinte catilinária:
— Esse cabra é um delinguente que assassinou sua vítima com “ineksorável” crueldade.
— Delinquente, doutor, corrigiu-o o defensor público em público. E outra coisa, a pronúncia de “inexorável” não é com “ks”, mas sim com “z”. Escreve-se com “x”, mas pronuncia-se com “z”. Assim, ó: “inezorável”.
Amigo leitor, na dúvida da pronúncia de um vocábulo, consulte o Vocabulário ortográfico da língua portuguesa da Academia Brasileira de Letras, o quase desconhecido VOLP, ou qualquer outro dicionário atualizado do idioma pátrio. Eles trazem, entre barras, a letra indicadora da pronúncia do x, que ora pode ser /ks/, como em anexo, ora /ch/, como em xícara, ou /z/ como é o caso de inexorável.
Até aqui, tudo bem, o problema foi quando o defensor pediu ao juiz:
— Excelência, “desiguína” outra testemunha para depor...
E o promotor deu-lhe o troco: — Também o nobre colega errou na pronúncia de “designa”; então, estamos quites, pois esta palavra se pronuncia /dezígna/.
Ansioso pelo fim do caso, o juiz ordenou à secretária:
Hajam vistas os graves gravames idiomáticos dessa seção, decido suspendê-la para que, somente após esclarecidos todas as dúvidas linguísticas, eu a possa concluir. Destarte, determino à dona Tempesta que faça a revisão de nossos textos e nos encaminhe, tempestivamente, uma cópia da sentença dessa audiência.
Antes de ser demitida, a secretária entregou ao seu chefe o seguinte texto:
Haja vista a nossa ignorância, somente haverá o epílogo desta sessão quando um bom professor de língua portuguesa nos facultar que sejam esclarecidas todas as dúvidas linguísticas desta audiência.
Coitada, foi punida por ser a única que sabia escrever corretamente e com estilo.
Agora, tenta inutilmente ser contratada como professora de português naquele fórum. Porém, desde então, quem, diariamente, passa por aquela vara lê o seguinte aviso: “Audiência só amanhã”.
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