terça-feira, 13 de novembro de 2012

Da verdade, caridade e salvação segundo Jesus

 
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e as línguas dos próprios anjos, se eu não tiver caridade, serei como o bronze que soa e um címbalo que retine.” 1 – Assim iniciou Paulo de Tarso uma de suas mais coerentes e admiráveis cartas à comunidade de Corinto, na Grécia do seu tempo.

No tocante a essa virtude, o sacerdócio organizado que tomou como sua a posse da verdade absoluta, desde o século quarto, tem também escrito as suas cartas. Em uma de suas últimas cartas circulares pontifícias, datada de sete de julho de 2009, a Caritas in Veritate (Caridade em Verdade), parágrafo 1.o, transparece a esdrúxula doutrina da “redenção pelo sangue de Cristo”, que, de início, afirma:

A caridade, na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com sua vida terrena e, sobretudo, com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira

Verdade deles
Noutro trecho dessa encíclica, no seu parágrafo 2.o, afirma-se ainda que “a caridade há de ser compreendida e praticada sob a luz da verdade”. Quem ler examinando o desenrolar do texto, logo entenderá que essa “verdade”, obviamente, é a do sacerdócio organizado. Ou seja: quem não adere à verdade da salvação pela fé, não pode se salvar. (A referida encíclica encontra-se à disposição na Internet.)

A respeito do conceito de “salvação”, o próprio Jesus jamais afirmou, sequer insinuou tamanho absurdo. Sua doutrina se resume no maior de todos os mandamentos2 e nada mais. Salvar-se, segundo Jesus, significa cumprir o mandamento da Lei Maior, o qual se resume no amor irrestrito a todas as criaturas, ao próximo, aos mais próximos.

Sem o magno compromisso moral que recomenda “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, a criatura encarnada (e desencarnada!) nunca terá em si o Reino de Deus. Lembremo-nos de que esse reino não pertence a este mundo nem possui forma exterior, sendo essencialmente um estado de paz, de consciência tranquila. Tal sentimento de bem-estar, sublima-o o dever cumprido pela ação generosa em proveito de alguém ou de alguns, ou de muitos.

Não passa de mentiroso

O bem ao próximo, aos mais próximos, enfim, a tudo o que cerca ou envolve os seres vivos, a natureza, dá esse estado de espírito e torna o benfeitor o mais feliz dos seres mesmo ante os mal-agradecidos, os invejosos, os caluniadores, ante todas as vicissitudes da existência. Não é possível! Se alguém disser que traz consigo esse reino, e ao mesmo tempo desrespeita a crença dos outros, cria barreiras como a do preconceito, da má vontade, julgando, condenando, denegrindo nomes e instituições respeitáveis. Não passa de um mentiroso. 

O que mais a intolerância e o preconceito religioso produziram foram injustiças, crueldades. Os atos do Tribunal do Santo Ofício, as Guerras Santas que o digam, em que pese Jesus ter deixado bem claro o segundo mandamento, além do amar a Deus de todo o coração, de toda a alma: “(...) Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 13, 30-40).

No entanto, religiões e seitas ditas cristãs valem-se do engano Paulino referente à caridade e à fé, antepondo esta àquela, a fim de manter o dogma da “graça e salvação pela fé”, em contraste com a moral do Evangelho. Por conta desse e de outros pontos de doutrina, estranhos ao pensamento do Mestre Nazareno, ainda por cima definiram a Igreja como a “única coluna e baluarte da verdade”, com base na primeira epístola do mesmo Apóstolo (I a Timóteo, 3,15). 
 
É por essas e outras que esse Cristianismo sentencioso colide com “agora estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade permanecem, sendo a mais excelente a caridade”, do próprio Paulo (Coríntios, 13, 13); com “assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta”, do Apóstolo Tiago (Tiago, 2,17).

Caridade, e não verdade de a, de b ou de c

A caridade, como a entende Jesus, e confirmada pela Doutrina Espírita, é e sempre será o único meio de salvação, e não segundo a verdade de a, de b ou de c. Por sinal, as modernas edições bíblicas astuciosamente substituíram o termo caridade pelo termo amor, ofuscando-lhe o brilho do sentido dado pelo Mestre. Por isso, segundo o Espiritismo, ela não se limita a tão-somente favorecer os pobres com coisas materiais; sob o ponto de vista espírita, caridade vai desde o ato de doação de “uma moeda” até o de se “perdoar o inimigo”. Perdoar o inimigo resume-se em caridade moral por ter como princípio a Humildade, a maior de todas as virtudes, daí Jesus colocá-la no primeiro item das Bem-aventuranças, durante o Sermão do Monte (Mt., 5,3).
 
Salvação, conforme a Doutrina, não se relaciona a “penas eternas” nem com a salvação de supostas tentações de seres infernais, nem com inferno. O Paulo – não o da carta aos efésios (Ef., 2,8) ao escrever: “pela graça sois salvos mediante a fé”, e sim o Paulo aos romanos (Rom., 2,6), “Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras” – compreendeu que a salvação só acontece pela prática do bem, por atos provenientes do sentimento caridoso. “Obras”, aqui no caso, é mesmo o que entendemos como caridade, ou seja, o conjunto de todas as virtudes da alma, porque dela resulta a benevolência com todas as criaturas, e está ao alcance de todos: do ignorante ao sábio, do pobre ao rico, independente de qualquer crença particular.
 
Nenhuma filosofia, religião ou seita possui o privilégio da verdade absoluta. Salvação, quer dizer evolução; só diz respeito a nós mesmos; sem ela, estacionamos em erros e sofrimentos. Se não combatermos nossas más tendências, se não superarmos vícios e defeitos, jamais evoluiremos e, por conseguinte, tornar-se-á cada vez mais difícil o Reino do Céu em nós, a bem-aventurança, ou felicidade perfeita. Esta, só a conseguiremos à custa de uma profunda reforma de temperamento, e Jesus já fez a Sua parte; Ele já ensinou como bem fazê-la. 

Fiquemos, portanto, com esta belíssima ilação do Espírito Emmanuel:
(...) Salvar, em legítima significação, é “livrar de ruína ou perigo”, “conservar”, “defender”, “abrigar”, e nenhum desses termos exime a pessoa da responsabilidade de se conduzir e melhorar-se. Navio salvo de risco iminente não está exonerado de viagem, na qual enfrentará naturalmente perigos novos. E doente salvo da morte não se forra ao imperativo de continuar nas tarefas da existência, sobrepujando percalços e tentações. (...) Pedro, salvo da indecisão, é impelido a sustentar-se em trabalho até a senectude das forças físicas. Paulo, salvo da crueldade, é constrangido a esforço máximo, na própria renovação, até o último sacrifício. 5
 
Referências:
1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução Herculano Pires. 62. ed. São Paulo: Lake Livraria Allan Kardec Editora, 2001. Cap. 15, do item 1 ao 3, p. 197.
2 Idem, ibidem. Item 4 e 5, p. 199.
3 Idem, ibidem. Cap. 7.o, item 1 ao 13, p. 105.
4 Idem. O Livro dos Espíritos. Tradução Herculano Pires. 62. Ed. São Paulo: Lake Livraria Allan Kardec Editora, 2001. Cap. 11, questão 886, p. 292.
5 XAVIER, Francisco C. Palavras de Vida Eterna (Espírito Emmanuel). 13. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 1989. Tema 153, p. 322.

Visite o blog Pensamento&Espiritualidade http://pensesp.blogspot.com. 
Fonte: o Consolador uma Revista de Divulgação Espírita
 
                                     

Nenhum comentário:

Postar um comentário