sábado, 17 de novembro de 2012

SONHOS E CONFLITOS! Pobreza é um pesadelo.



Foto de Jacilene e Reinaldo na porta da Igreja Católica do Povoado Centro Grande - Axixá, onde realizavam os festejos de Santa Maria, no mês de maio e São José no mês de dezembor, quando eu morava lá.

Por:  Reinaldo Cantanhêde Lima
A pesar do prazer que tinha no convívio com os conterrâneos e parentes, eu vivia em conflitos com os meus sonhos! O Povoado onde nasci Centro Grande – Axixá, em (11/02/1945) era muito alegre, constantemente os jogos  de futebol entre os Povoados vizinhos, eram organizados nos finais de semana. Nem sempre o meu pai podia pagar a entrada no campo do Central. Eu ficava muito triste quando perdia ao espetáculo; os músicos tocavam as marchinhas e os torcedores gritavam: leva essa bola, leva essa bola, leva essa bola!

Comecei trabalhar com oito anos de idade ajudava o meu pai nas atividades da roça, certa noite acordei pelo son de uma linda música, executada por um piston, um saxofone e entoada por vozes femininas. Era mês de janeiro, logo deduzi que tratava-se de festa de Santo Reis, eu não fui participar por vários fatores: não tinha dinheiro  para pagar  a  bolsa entrada na festa e nem roupa adequada, estava ajudando o meu pai nos trabalhos da roça.

Pela manhã fiquei sabendo que era o Reisado de São João do Rosário, que havia se apresentado em várias casas e depois reunido no salão de festa. Essa era a tradição da região, depois que o Reis terminava de apresentar-se nas residências, reuniam-se em algum local e a festa continuava até o amanhecer.  Mas, era preciso cobrar a bolsa para pagar os músicos.

No dia seguinte fui para a roça logo cedo com meu pai e ele percebeu que eu estava triste e perguntou-me se estava doente? Respondi que não, com certeza ele deduziu.  A noite  antes do jantar conversei com a minha vó sobre as dificuldades ela convidou-me para ajuntar andiroba, a princípio resistir e depois concordei. Andiroba é uma castanha nativa, frutos de árvores de grande porte a colheita inicia no mês de dezembro e termina no mês de maio.

No outro dia minha vó combinou com meu pai, que deveria ajuntar andiroba para comprar umas roupas  que eu estava em falta, sendo a tarefa extrativista realizada pela manhã,  depois ia ajudar na roça. Meu pai também resistiu, minha mãe intercedeu e convenceu meu pai da necessidade de realizar essa tarefa. Quando foi a noite eu não dormi  estava envergonhado, porque meu pai tinha preconceito com tal atividade, ele dizia que ajuntar andiroba era trabalho pra mulher, e eu também concordava com ele.

As quatro da madrugada minha vó  chamou-me para a difícil tarefa. Levantei e fomos a luta, foi muito dolorido para mim  era um trabalho humilhante. Mas eu não sabia fazer outra coisa para ganhar dinheiro. Para eu passar no meio do Povoado, carregando um cofo com  a andiroba na cabeça,  parecia que eu não estar vivo.  Eu temia do que as pessoas pudessem duvidar da minha masculinidade!

Com a relevante contribuição da Senhora Avelina Cantanhêde minha vó, consegui apurar algumas  latas de azeite de andiroba. Antes que eu vendesse o produto passei por outro momento de tristeza. Em Centro Grande faziam e fazem dois festejos no ano  e,  reúne muita gente: o  primeiro  é no mês de maio e o segundo no mês de dezembro,  o ano do qual me refiro não fui a festa do mês de maio, minha mãe estava criando um bebê e o meu pai não pode prover-me com roupa e dinheiro.

O produto do trabalho azeite que conseguimos apurar foi do mês de junho a julho.  Quando o azeite estava pronto para a comercialização, conversei com o meu pai e falei do meu desejo de usar uma calça de linho belga branco uma camisa bonita e um sapato da marca xavante boca de elástico.

Eu tinha uns tios que moravam em Itapera Axixá donos de pedreiras que só usavam roupas  boas,  era  daquelas fazendas que eu queria usar. Meu pai foi a São Luís e comprou roupas lindas, ele gastou o meu dinheiro  só com vestimentas de primeira e ainda sobrou um pouco para outras despesas.

Em dezembro desse ano eu participei do festejo do padroeiro de Centro Grande, São José, com roupas e sapato novos e dinheiro no bolso. E, continuei ajudando o meu pai nos trabalhos da roça, más, não sentia - me feliz  como o meu pai que dizia que Deus deixou a terra para o homem plantar e dela  tirar o sustento para não ser escravo de outro homem.  José Nazário Lima, meu pai, deu-me um excelente exemplo de honestidade, liberdade e respeito. Um homem deve trabalhar para não pedir e não roubar, foram seus exemplo  a razão de nunca vender o meu voto.

  
Pobreza é um pesadelo!

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